Passagem de André Ventura é considerada um grande avanço político para a ultra direita em Portugal; Seguro teve mais votos face ao voto útil de esquerda e o partido do primeiro ministro ficou fora do segundo turno
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Com agências.
(Brasília-DF, 19/01/2026). A passagem do candidato André Ventura para o segundo turno das eleições presidenciais portuguesas, previsto para 8 de fevereiro, é considerada um trunfo estratégico para o seu partido, o Chega, de direita radical, ainda que suas chances de vitória sejam pequenas.
Entre a comunidade brasileira no país, cresce o temor de que esse fortalecimento se traduza em políticas migratórias mais duras e em um ambiente mais hostil, com maior tolerância à xenofobia.
O primeiro turno da votação presidencial aconteceu nesse domingo ,18. Foi a primeira vez em 40 anos que nenhum candidato conseguiu os mais de 50% dos votos necessários para evitar um segundo turno.
António José Seguro, ex-secretário-geral do Partido Socialista (PS), de centro-esquerda, ficou em primeiro lugar, com 31,1% dos votos. Ventura foi o segundo mais votado, com 23,5% — ligeiramente acima dos 22,8% obtidos pelo Chega nas eleições legislativas do ano passado.
O fortalecimento da direita radical tem sido um dos fenômenos de maior impacto na política portuguesa nos últimos anos.
As chances de vitória de Ventura no segundo turno das eleições presidenciais, porém, são consideradas pequenas por analistas políticos consultados pela BBC Brasil, em função de seus altos índices de rejeição.
Segundo uma sondagem da Universidade Católica Portuguesa divulgada na última quarta-feira, 64% dos eleitores afirmam que jamais votariam no candidato do Chega em um segundo turno, enquanto a porcentagem dos que não votariam em Seguro era a menor entre todos os candidatos: 41%.
Ainda assim, analistas fazem a ressalva de que um fato novo sempre pode alterar o cenário eleitoral. O próprio Seguro, por exemplo, não estava entre os favoritos para chegar ao segundo turno em dezembro — e conseguiu crescer rapidamente nas pesquisas com a ajuda do voto útil da esquerda.
Mesmo com poucas chances de vitória, a presença do Chega no segundo turno representa um trunfo para a direita radical portuguesa por ao menos duas razões, segundo analistas ouvidos pela BBC Brasil.
Para começar, ao longo do restante da campanha, Ventura contará com um grande palco de exposição nacional, o que amplia sua visibilidade e pode contribuir para a "normalização" de seus discursos e propostas.
Além disso, no segundo turno, os eleitores escolhem apenas entre dois nomes, então é provável que Ventura saia da disputa com a melhor votação de sua carreira política, mesmo em um cenário de derrota.
Neste primeiro-turno, excluídos os votos de Ventura e de Seguro, os candidatos derrotados de centro e centro-direita somaram cerca de 40% dos votos, enquanto o campo da esquerda não ultrapassou 5% do total restante.
Como observa António Costa Pinto, professor da Universidade Lusófona de Lisboa, se Ventura conquistar parte desse robusto eleitorado de centro e centro-direita, alcançando entre 30% e 35% dos votos, a agenda do Chega ganhará peso também entre as classes políticas, consolidando a ideia de que o partido é "um movimento em ascensão".
Nesse cenário, alianças hoje vistas como improváveis podem tornar-se politicamente mais aceitáveis. "Mesmo sem vencer, um Chega fortalecido tende a empurrar o debate político para a direita e a pressionar por leis mais duras sobre imigração e ordem pública", afirma Marco Lisi, da Universidade Nova de Lisboa.
( da redação com agências. Edição: Política Real)