Em conversa com jornalistas, Maia chama gestão de Pazuello no Ministério da Saúde de “desastre”
Presidente da Câmara disparou críticas também para Bolsonaro, Paulo Guedes e que bloqueou o ministro Augusto Heleno num aplicativo de conversa; ele fez elogios aos ministros generais Braga Neto e Luiz Eduardo Ramos
( Publicada originalmente às 15h 28 dp doa 16/12/2020)
(Brasília-DF, 17/12/2020) Em conversa de final do ano com jornalistas na residência oficial da Câmara dos Deputados, onde recebeu os profissionais de imprensa para um café da manhã, o presidente da Câmara, deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ), chamou nesta quarta-feira, 16, a gestão do atual ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, no cargo desde meados de agosto, de “desastre”.
Maia disparou, ainda, inúmeras críticas também para o presidente da República, Jair Bolsonaro (Sem Partido), a quem diz não possuir relação pessoal nenhuma, ao ministro da Economia, Paulo Guedes, na qual avalia que sua agenda econômica já não seja mais a prioridade do governo, e ao ministro responsável pela Segurança Institucional, general Augusto Heleno, quem diz ele ter bloqueado num aplicativo de conversas utilizado no telefone celular.
“E acho que ele pode, sem dúvida nenhuma, além de prejudicar muito a imagem do Exército brasileiro, ele pode comprometer muito, com essa falta de organização, com essa incompetência, tanto a solução para a vacina quanto a solução para esse movimento, esse aumento no número de infectados, de mortos, que precisaria de uma articulação melhor e de melhor qualidade entre governo federal, estados e municípios. O ministro da Saúde é um desastre. Um desastre para o país e para o governo. Acho que a sociedade já começou a entender isso, principalmente a área médica”, falou.
“O Ministério da Saúde do jeito que está, quem vai pagar a conta primeiro é a sociedade, que é mais importante do que o governo pagar a conta. Pode comprometer muito com essa falta de organização, com essa incompetência, tanto para a solução para a vacina, quanto para o combate ao aumento de casos de covid. Em relação à questão da logística, que diziam que era o forte dele, até agora não apresentou nada organizado, para as vacinas e nem para nada. E pode, com essa incompetência, comprometer tanto a solução para a vacina, quanto para esse aumento no número de infectados, de mortes, que precisaria de uma articulação melhor entre governo federal, estados e municípios”, complementou.
Fora da realidade
Ainda avaliando a gestão de Pazuello no combate a pandemia, Maia lamenta que o ministro da Saúde e o próprio presidente não tiveram o mesmo tratamento destinado a maioria da população nos postos e hospitais públicos.
“Ele [Pazuello] não passou pelo que muitos brasileiros passam sempre. O presidente Bolsonaro também não. Essa insensibilidade é grave e acaba prejudicando milhões de brasileiros. O que falta para o governo, ao ministro e ao próprio presidente é ter a sensibilidade de que o brasileiro não tem acesso à mesma estrutura que nós temos. Bolsonaro e Pazuello quanto pegaram covid, tiveram o melhor atendimento médico. Mas, milhares, ou milhões de brasileiros não tiveram condições que nós tivemos, eu também fui muito bem atendido. Os brasileiros anseiam pela vacina o mais rápido possível, é grave a insensibilidade Bolsonaro e falta sensibilidade também para o ministro da Saúde entender essa pandemia”, comentou.
Mais críticas
Na sequência, o parlamentar do DEM fluminense passou a fazer uma sucessão de críticas e disparos ao integrantes do governo, sobretudo, do próprio presidente. Maia avalia que Bolsonaro já está pensando em 2.022 e para isso vai centrar nas suas pautas que contribuíram com a sua eleição em 2.018.
“Ele [Bolsonaro] não ter a pauta de costumes na Câmara reduz esse ambiente polarizado, que construiu a outra eleição dele e vai construir a próxima. Ele não ter ambiente de debate na Câmara sobre armas, de costumes, sobre aborto, diminui o debate na sociedade sobre a pauta [em] que ele quer construir a eleição dele. Acho que, nas conversas mais fortes que estão acontecendo, o movimento das últimas horas da tentativa de um terceiro candidato vem muito mais do [próprio] governo de tentar estimular a ter uma candidatura que não apoie um movimento mais amplo de independência da Casa”, avaliou.
“A impressão que eu tenho é que o Palácio não tem mais interesse em votar matérias que geram desgaste, como a PEC Emergencial. O que eu ouvi, não tenho informações, é o que eu ouvi, é que na reunião com o [senador] Márcio Bittar [MDB-AC], o presidente disse que não quer votar mais nenhum corte de gastos. A minha dúvida é se o Paulo Guedes hoje é majoritário no governo, eu acho que não. Essa política, na qual os políticos sempre defenderam ampliação de gastos, os militares sempre defenderam ampliação de gastos, acho que está com mais força. Minha percepção é de que o Paulo perdeu a força dessas políticas que geram desgaste, mas que são melhores na sociedade. A eleição é só daqui a dois anos”, completou.
Economia confusa
O presidente da Câmara analisa que o governo Bolsonaro está saindo de uma agenda econômica confusa para uma pauta que ele ainda não sabe o que é.
“Pelo menos, tinha convergência na economia. Não sei mais, porque não sei qual a pauta econômica do governo. Do Paulo Guedes, eu sei, é confusa, mas eu sei. A do governo, não sei porque desistiu dos gatilhos. Não tenho proximidade com o Bolsonaro, não falo com o Paulo Guedes, mas a minha impressão, olhando de longe, é que ele tem gratidão pelo Paulo Guedes, mas não tocará mais essa pauta. Não sei se o Paulo Guedes vai aguentar, se vai pedir demissão. Mas a minha opinião é de que o presidente não tocará mais aquelas agendas nos próximos dois anos”, acredita.
Elogios
Mas apesar das várias criticas a alguns integrantes do governo Bolsonaro, o presidente da Cãmara fez questão de fazer elogios aos ministros generais que ocupam a Casa Civil, Braga Neto, e a Secretaria de Governo da Presidência da República responsável pela articulação política, Luiz Eduardo Ramos.
“São pessoas de ótima qualidade, bom diálogo, mas o militar não foi preparado para liderar. E isso acaba atrapalhando muito, você vê o desastre que é o ministro da Saúde. Por isso, há desorganização no Palácio de grandes militares, mas sem experiência de governo e sem gestão política. Por isso, apesar de toda a competência e boa vontade dos ministros militares que estão no Palácio, há sempre uma maior dificuldade”, observou.
“Admiro muito o Ramos e o Braga Neto. Acho que foram treinados para comandar e não para liderar. Acho que estão ali tentando fazer o melhor deles, com todas as dificuldades que está no entorno do presidente. Como geralmente os militares tendem a saber comandar e não a liderar, eles acham que essa relação é de comando. Se eu libero a emenda, eu comando uma bancada, e não é assim”, finalizou.
(por Humberto Azevedo, especial para a Agência Política Real, com edição de Genésio Jr.)