ESPECIAL DE FIM DE SEMANA: 1,5 mil jogadores do Nordeste ficam à toa
Na série "D" há 64 clubes de futebol que entram em apenas cinco dos 11 meses em que poderiam estar jogando. Há os que ganham R$ 720 de salário e os desempregados
(Brasília-DF, 21/06/2014) O mundo está de olho na Copa do Mundo da Fifa que o Brasil sedia pela segunda vez em 64 anos. O torneio que terá uma arrecadação de mais de R$ 10 bilhões em favor da entidade que administra o futebol mundial contrasta com o cenário de pobreza em que se encontra a maioria dos clubes e atletas brasileiros. No Nordeste, por falta de um calendário profissional para atuar o ano inteiro, quase 1,5 mil jogadores ficam sem atividades.
O problema que há anos se arrasta encontrou eco no último agora, quando alguns profissionais que integram a “elite” do futebol brasileiro resolveram criar um movimento denominado “Bom Senso Futebol Clube” para reivindicar melhores condições de trabalho e um calendário que atenda a todos os clubes. Não apenas os principais que acabam sendo forçados a jogarem mais e num ritmo alucinante a cada três dias.
Apoio da presidenta
O movimento recebeu o apoio da presidenta Dilma Rousseff no último dia 10, durante um pronunciamento em cadeia de rádio e televisão em que falou da abertura da Copa do Mundo de futebol. Na oportunidade, Dilma afirmou ao se referir aos jogadores que “vocês merecem que um dos legados da Copa seja também a modernização da nossa estrutura do futebol e das relações que regem nosso esporte”.
O calendário futebolístico brasileiro privilegia apenas 40 clubes do país. 20 na “série A” nacional, onde se concentra o dinheiro que movimenta o futebol, e outros 20 na “série B” tupiniquim que recebem a sobra dos recursos financeiros. Demais 20 equipes que participam da “série C” brasileira, apesar de terem calendário em boa parte do ano, convivem com a falta periódica de recursos para desenvolver o esporte mais popular entre os brasileiros.
Situação de exclusão
Outros 64 clubes que são listados a jogar a “série D” nacional jogam apenas cinco dos 11 meses que poderiam estar em atividades. Os times que só disputam os campeonatos estaduais e que não se classificam para os torneios nacionais, que são maioria, só atuam nos três primeiros meses do ano. Em abril, fecham às portas e só retornam as atividades no início de dezembro com vistas para a próxima edição dos campeonatos regionais.
Dentro deste cenário se encontram 64 clubes nordestinos divididos por sete em Alagoas; oito da Bahia; sete no Ceará; oito no Maranhão; sete na Paraíba; seis em Pernambuco; sete no Piauí; seis no Rio Grande do Norte; e oito em Sergipe. Isso sem contar com os clubes que jogam as segundas divisões dos torneios estaduais. Enquanto a média salarial de um atleta que participa da “série A” é de R$ 90 mil. Jogadores que atuam em times que não disputam torneios nacionais ganham em média um salário mínimo (R$ 720,00) nos três primeiros meses. Depois ficam desempregados.
Solução
O deputado Fernando Ferro (PT-PE) acredita que a solução para resolver este impasse que privilegia uma minoria de clubes e atletas, ao mesmo tempo em que praticamente interrompe as atividades da grande maioria de equipes e jogadores que atuam no país, é modernizar a gestão esportiva. Além de oferecer um Estatuto do Esporte que equacione essas diferenças.
“Eu acho que tem que criar uma política de incentivo às ligas, às federações, para haver um processo de renovação das direções que viraram controladas por máfias que se perpetuam. Esse pessoal que reclama que Fidel (Castro) ficou tanto tempo no poder e todos eles têm essa mania de virar 30, 40 anos na federação. Criar um estatuto, a exemplo do estatuto do torcedor, para o esporte, onde a gente possa ter um critério mais organizado para essa gestão do esporte brasileiro. Para compreender essa diversidade regional e para incentivar (a prática esportiva) em todo o país”, falou Fernando Ferro.
Exemplo alemão
Para argumentar a sua solução proposta, o petista pernambucano deu como exemplo o modelo adotado na Alemanha. “O sucesso, por exemplo, do (campeonato) alemão, é que ele promoveu em todo o país, escolas de futebol e incentivo aos pequenos clubes, além de organizar várias faixas, desde o profissional, até as divisões inferiores, com todas elas feitas com uma boa gestão. Com a participação, inclusive, dos jogadores que são os profissionais diretamente envolvidos neste processo e que geralmente ficam alienados deste debate”, continuou Fernando Ferro.
Diferenças na própria “série A”
Mas as diferenças não são só verificadas em times da “série A” para clubes que nem participam de “séries nacionais”. Dentro da própria “série A”, a diferença de arrecadação de alguns clubes para outros, já é abissal. Ao começar pela receita de TV que os dois clubes mais populares do Brasil recebem. Corinthians e Flamengo recebem cerca de R$ 110 milhões da TV Globo, detentora dos direitos de transmissão.
Ao contrário, os clubes populares do Nordeste como o Esporte Clube do Bahia, o Sport Clube do Recife e Vitória Esporte Clube, que também participam da “série A”, recebem cerca de 30% dos valores pagos a Corinthians e Flamengo. Ficando atrás, ainda, de São Paulo (R$ 80 milhões), Vasco e Palmeiras (R$ 70 milhões), Santos (R$ 60 milhões), Atlético-MG, Cruzeiro, Grêmio e Internacional (R$ 45 milhões). Os nordestinos que atuam na “série B” ABC, América-RN, Ceará, Icasa, Náutico, Sampaio Corrêa e Santa Cruz recebem apenas R$ 3 milhões de cotas de TV.
Sem direitos de TV
Ao contrário dos clubes da “Série A”, os 84 times de futebol que jogam as “séries C e D” não recebem nenhum valor referente aos direitos de transmissão dos torneios. Isso porque a TV Brasil ─ emissora estatal ─ exibe os dois campeonatos apenas com objetivo de apoiar a divulgação das equipes que participam dos dois torneios. O único incentivo concedido pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) aos clubes das “séries C e D” é o pagamento das despesas de transporte, estadia, alimentação e arbitragem dos jogos.
Jogam a “série C” do campeonato brasileiro os seguintes clubes nordestinos: Asa, de Arapiraca (AL); Botafogo, da Paraíba; o alagoano CRB; Fortaleza; o pernambucano Salgueiro; além do paraibano Treze de Campina Grande. Já os nordestinos da “série D” são: Baraúnas-RN, Campinense-PB, Central-PE, Confiança-SE, Coruripe-AL, Globo-RN, Guarany-CE, Jacuipense-BA, Moto Club-MA, Porto-PE, River-PI e Vitória da Conquista-BA.
Consciência
“Por isso, é positivo a criação desta consciência política e social dos jogadores de debater e não ser o futebol apenas esse espaço, onde uma minoria é milionária e grande maioria são marginalizados, boias-frias do futebol, sem direitos trabalhistas e totalmente abandonados. O que é uma vergonha, o futebol pentacampeão de o mundo ter um padrão, digamos assim, de baixíssimo nível de gestão. E de atenção e respeito aos seus atletas”, analisou Fernando Ferro.
(Por Humberto Azevedo, especial para Agência Política Real, com edição de Valdeci Rodrigues)