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  • 24/05/2024 06h54

    CHUVAS VOLTAM: Porto Alegre vive alongamentos e cena de caminhões e barcos retirando pessoas de pontos isolados pela água.

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    Foto: Reuters

    Chuvas voltam a cair no Rio Grande do Sul

    ( Publicada originalmente às 19h 00 do dia 23/05/2024) 

    Com BBC Brasil

    (Brasília-DF, 24/05/2024) Como já tinha sido informado pela Política Real nessa quarta-feira, 22, as chuvas voltaram a cair no Rio Grande do Sul após um período de “trégua”.

    As chuvas em grande volume de volta às ruas de Porto Alegre geram cena comum nos piores dias da catástrofe ambiental que se abate sobre o Rio Grande do Sul: caminhões e barcos retirando pessoas de pontos isolados pela água.

    A precipitação, que começou na madrugada de quinta ,23, e deve prosseguir durante a sexta-feira, 24, atingiu em apenas 12 horas a marca de 100 milímetros, equivalente à média histórica de todo o mês de maio, segundo o serviço meteorológico MetSul.

    Em pontos das zonas leste e sul, relativamente poupadas na primeira fase da enchente, a chuva chegou a 130 mm no mesmo intervalo, conforme o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet)

    A reportagem da BBC News Brasil circulou pelas zonas leste, norte e central da capital ao longo do dia e testemunhou diversos pontos de alagamento em vias como as avenidas Ipiranga, Bento Gonçalves, Goethe, Silva Só e outras.

    Mesmo o arroio Dilúvio, curso d'água que corta a capital no sentido leste-oeste, apresentava nível incomum de água, aproximando-se do leito das pontes das avenidas Azenha e Silva Só.

    Escolas

    O prefeito Sebastião Melo (MDB) anunciou a suspensão das aulas na rede pública e privada na sexta-feira e o fechamento das comportas do sistema de contenção do Guaíba

    A prefeitura foi muito questionada nesta quinta sobre por que não tomou mais medidas com antecedência considerando que havia previsão de chuva.

    Em coletiva de imprensa, Sebastião Melo disse que "a prefeitura não foi pega de surpresa pelas chuvas".

    Segundo ele, a prefeitura sabia através da previsão do Climatempo sobre as chuvas e por isso tomou algumas decisões, mas que o volume foi além do esperado.

    "Tão logo a chuva começou a acontecer, eu vim para a comissão de crise e tomei as decisões. Algumas pessoas podem perguntar 'mas vocês poderiam ter feito isso ontem', é um questionamento legítimo, mas em momento de chuva tudo é muito difícil", afirmou Melo. "Sabíamos que ia chover, mas as chuvas foram especialmente fortes."

    A prefeitura disse ainda que o fato da rede já estar muito sobrecarregada afetou a capacidade de contenção do problema, mas que não há um "colapso" do sistema de proteção à chuvas.

    Entre as decisões tomadas, segundo o prefeito, está o fechamento das comportas anti-alagamento do rio. Segundo a prefeitura, 5 das 14 comportas estavam abertas ainda na tarde de quinta, mas em "iminência de fechamento".

    Segundo o diretor do Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae), Maurício Loss, algumas das comportas que foram mantidas abertas tinham o objetivo de ajudar no escoamento das áreas alagadas; mas assim que identificado que hávia uma inversão, ou seja, que as águas estavam indo do rio para a cidade, as comportas foram sendo fechadas.

    O diretor do Dmae também negou que o sistema de saneamento da capital tenha entrado em colapso e culpou pela situação a chuva “além do previsto”.

    Loss disse também que 10 das 23 estações de bombeamento fluvial da cidade estão funcionando.

    O Dmae afirmou que, nos últimos 20 dias, parte das casas de bombas foram alagadas e que a substituição dos motores não é imediata, depende da encomenda das máquinas, que já foi feita.

    A prefeitura tem enfrentado acusações de “possível negligência e omissão” em relação ao sistema de proteção contra enchentes da capital.

    Segundo documentos do Dmae que vieram à tona nesta semana, a administração foi avisada por técnicos que havia problemas na estrutura de bombeamento de água.

    Além de interromper o sonho de normalização de muitos gaúchos, a enxurrada de quinta-feira ,23, travou operações de reocupação de espaços públicos e destruiu obras emergenciais que serviam de paliativo diante da aniquilação da infraestrutura do Estado.

    Em Porto Alegre, a prefeitura havia programado o início da limpeza do Mercado Público. Com as chuvas, foi preciso adiar o trabalho.

    No bairro Sarandi, zona norte de Porto Alegre, a chuva e a correnteza do Arroio das Pedras derrubaram um trecho da Avenida Sarandi e do talude de contenção na esquina com a Avenida General Raphael Zippin.

    Embora o Sarandi seja o bairro onde a enchente atingiu o maior número de pessoas, com 26.042 pessoas afetadas segundo a prefeitura, esse ponto da avenida não havia sofrido danos até ontem.

    No Vale do Taquari, uma ponte provisória flutuante instalada pelo Exército sobre o Rio Forqueta, entre os municípios de Lajeado e Arroio do Meio, foi levada pela torrente. A passagem, em uso desde a quarta-feira ,15, substituía a antiga ponte destruída pela enchente e permitia a passagem de 45 pessoas por minuto, em sentido único.

    Denúncia ao ministério público

    Os documentos do Dmae foram anexados pelo deputado estadual Matheus Gomes (PSOL) em um ofício enviado na quarta ao procurador-geral de Justiça do Estado, Alexandre Saltz, no qual solicita abertura de procedimento para averiguar “possível negligência e omissão” da prefeitura em relação ao sistema de proteção contra enchentes da capital.

    O documento traz uma série de despachos e laudos de servidores do Dmae no qual os técnicos solicitam providências em relação a falhas do sistema.

    Entre os questionamentos feitos pelo Psol, estão:

    O que foi feito em 2018 quando engenheiros apontaram falhas no sistema de descarga de bombas do rio Guaíba?

    O processo administrativo para conserto de problemas nas bombas foi interrompido em 2019. Por que ele ficou três anos parado? Outras medidas para o conserto foram tomadas nesse meio tempo?

    A falta de manutenção e qualificação do sistema de proteção à chuva poderia ter evitado o agravamento dos danos causados pela elevação dos rios em abril e maio e 2014?

    A prefeitura considerou as orientações do IPCC (painel intergovernamental sobre mudanças climáticas) e do Plano de Ação Climático da cidade em suas ações nos últimos anos?

    Sem citar os documentos ou o ofício enviado ao Ministério Público, o prefeito Sebastião Melo se defendeu na coletiva de quinta, afirmando que todas as obras necessárias exigem um alto volume de recursos que a prefeitura não tinha disponível.

    Disse também que foram investidos mais de R$ 35 milhões na dragagem (limpeza) dos arroios ( córregos d'água) e que a situação teria sido pior se isso não tivesse sido feito.

    Melo também acusou a "esquerda e a extrema esquerda" de criarem uma "narrativa mentirosa" sobre as enchente em Porto Alegre.

    "Essas pessoas governaram a cidade por 16 anos”, afirmou, em referência a administraçõesdo PT na capital nos anos 1990 (1989-2004).

    Melo é prefeito de Porto Alegre desde 2021. Antes disso, a cidade foi administrada pelo PSDB (2017-2021), pelo PDT (2013-2017) e pelo partido de Melo, que então se chamava PMDB (2009-2010).

    (da redação com BBC. Edição: Genésio Araújo Jr.)


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