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  • Contato Brasil, 22 de fevereiro de 2024 05:34:19
Edson Vidigal
  • 10/06/2023 07h34

    Chamando o vento pelo assobio

    Chico Maranhão também assobiava muito na praia do Calhau chamando o vento do seu Loló para desencalhar

    Um dia de vento forte na Ilha de São Luís( Foto: O Imparcial)

    No zap, pelo viva voz, Luiz Raimundo me conta que a Ilha hoje amanheceu assobiando. Aquele assobio de barqueiro-pescador chamando vento. Venta Lelê pra esse barco andar, venta Lelê pra esse barco andar...

    Ergo-me movendo os braços como numa saudação de palanque, daquelas que de há muito nem faço mais:

    - É o Maranhão, mermão! É o Maranhão...

    Então, navegando entre as ondas de um colírio, o meu drone, empanturrado de tanta inteligência artificial, restante das gambiarras engendradas nos silícios do Bacanga, alcança uma enorme palmeira branca tirada, segundo o António, de uma rocha metamórfica, constituída de calcita e dolomita recristalizada de textura sacaroide, de granulação variável, frequentemente provida de veios coloridos, tudo isso, para ser chamado, ao final, de mármore.

    (Esse António de quem vos falo é o Houaiss, isso mesmo – o António Houaiss, mais conhecido pelo dicionário concorrente do Aurélio, sim, o popular pai-dos-burros, do Aurélio Buarque de Hollanda, em cuja equipe militou o nosso imortal Campelo, da AML, e porque não lhe pagaram ainda rola processo judicial pelo aí.

    Tenho o meu pensar cauteloso, mas sempre muito indignado, sobre como estão ultimamente os três pilares do nosso mui querido Estado Democrático de Direito. Como diria um amigo nosso, aprendiz de Proust, depois eu conto...

    O António não resumiu seu tempo à essa obra esplendorosa que é o Dicionário. Vivesse hoje estaria, quem sabe, talvez, mais festejado em feiras e festivais por suas invenções gastronômicas. Escreveu um livro de receitas positivamente testadas na panela e no fogão.

    E não só isso. O Professor Sérgio, não sei bem, se à época já fosse o pai do Chico, quando ele, o António, mais o Mangabeira, irmão do Octavio baiano, mais o Hermes Lima, o Evandro Lins, nascido ali em Parnaíba e criado bem aqui em Itapecuru-Mirim, todos então na velha UDN, a qual não era conhecida ainda como a UDN da calúnia, desafiaram a velharada do partido e fundaram a Esquerda Democrática, a qual veio a ser o PSB, um tanto desvirtuada nos princípios programáticos da origem pelo Arrais, o qual voltou do exilio quando da última ditadura com um olhar ao Brasil um tanto ultrapassado. Mas a ideia de que o socialismo cabe muito bem num Estado Democrático de Direito foi debatida e construída originariamente aqui no Brasil por eles, os jovens da Esquerda Democrática.)

    Meu drone deu uma volta pelo topo da palmeira branca plantada numa praça que tem um coreto quase em frente a uma igreja de construção farejando o gótico. Mostra-me a foto que o inteligente artificial, - e já são tantos hoje na política, agora me apresenta. No topo da brancona e longilínea palmeira, quem? O Gonçalves Dias, não, não, sim, o cantor das selvas, de Caxias.

    Num dos bancos da praça do poeta de Caxias vez por outra era visto um senhor a tomar banho de sol. Aborrecia-se demais quando os garotos do grupo escolar em frente jocosamente o chamavam – ei Cauby Peixoto, ei Cauby Peixoto! O cara virava uma arara. Mas o negócio é que pendurava um palito de picolé no canto da boca e quando não assobiava, cantava a Tarde Fria.

    - É o Maranhão mermão! Sempre assobiando, palitando os dentes com palito de picolé, cantando a Tarde Fria...

    (Lelê é a nossa neta. De Euridice e minha também. Por extensão. Dessas que nunca se tira da tomada. Linda, inteligente, arguta. Como toda neta da gente. A saudade amanhecida hoje nesse friozão que faz aqui foi lá no meu subconsciente e voltou dizendo que é a Lelê quem chama o vento e ele atende. E não o seu Loló.)

    O chamamento do vento na ilha do Maranhão e terras circunvizinhas, como constatou e descreveu um ancestral direto do Macrón - o padre D’abeville, o qual tinha horror a mentiras, em especial as atiradas de uns incertos púlpitos, - oh templos, oh mores, - o cara que mandava no vento acionado pelo assobio chama-se Loló e mora invisível, até onde eu sei, por todas as praias do litoral nordeste do Brasil.

    Na jurisdição do seu Loló, a qual abarca por inteiro a ilha do Maranhão e terras circunvizinhas, incluindo Cedral e até Cajapió (não é a pior cajá, gente), seu Loló tem casa no Calhau. Foi lá que, no último século, lhe levaram a notícia de que o Coronel Santana deu ordem de prisão e levou preso o Secretário de Fazenda, se bem lembro, no último dia do governo do doutor Nunes Freire.

    Esse Coronel Santana, e fazia tempo de Quarta-Feira de Cinzas no País, era um dos mais exímios assobiadores – chamadores de vento para empinar seu papagaio tipo jamanta na Praça Marechal Deodoro.

    Chico Maranhão também assobiava muito na praia do Calhau chamando o vento do seu Loló para desencalhar.

    - Desencalhar, o que siô?

    - Sereia, siô. Sereia.

    Edson Vidigal, vive ultimamente por conta do achado de Glauber Rocha – no Maranhão, quem não é mais poeta, virou coco babaçu.

     

    Bsb, 09.06.23

     

     

     

     

     

     

     


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