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  • Contato Brasil, 21 de setembro de 2017 23:40:48
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Humberto Azevedo
  • 30/11/2016 15h39

    *A ORDEM DA ROSA-CRUZ*

    É um fato triste que, sempre que as ações pérfidas de um regime são suprimidas, outro regime de igual iniquidade é criado no lugar

    (*) Laurence Gardner

     

    Em 1614 e 1615, dois tratados conhecidos como os Manifestos Rosa-cruzes surgiram na Alemanha. Eram eles o Fama Fraternitatis e o Confessio Fraternitatis. A eles se seguiu, em 1616, um romance do mesmo tema, chamado O “Casamento Químico”, escrito pelo pastor luterano Johan Valentin Andreae, que era um alto funcionário da Prieuré Notre Dame de Sião. As publicações publicavam uma nova era de iluminismo e liberação hermética, na qual determinados segredos universais seriam desvendados e conhecidos. Diante do advento da Sociedade Real científica dos Stuarts, algumas décadas mais tarde na Grã-Bretanha, pode-se dizer que as profecias estavam suficientemente corretas, mas na época vinham veladas em alegoria. Os escritos se concentravam nas viagens e nos aprendizados de um misterioso personagem chamado Christian Rosenkreuz, um Irmão da Cruz Rósea. Seu nome foi claramente criado para ter um significado rosa-cruz, e ele era descrito usando a equipagem dos templários.

    O enredo de “O Casamento Químico” se passa no castelo mágico da Noiva e do Noivo: um palácio cheio de efígies de leões, onde os cortesãos são estudantes de Platão. Num ambiente digno de qualquer romance do Graal, a Virgem Acendedora de Lampiões faz com que todos os presentes sejam pesados na balança, enquanto um relógio indica os movimentos dos céus e o Velo de Ouro é apresentado aos convidados. O tempo todo toca uma música de corda e trombeta, e reina um clima de romântico cavalheirismo, com os cavalheiros de Ordens Sagradas presidindo. Embaixo do castelo há um misterioso sepulcro que contém estranhas inscrições, enquanto do lado de fora, no porto, encontram-se 12 navios de Pedra Dourada, cada um com sua bandeira individual do zodíaco. Em meio a essa curiosa recepção, uma peça de fantasia é conduzida para contar a intrigante história de uma princesa sem nome que, lançada ao mar numa arca de madeira, casa-se com o príncipe de origens igualmente obscuras, fazendo com que uma herança real usurpada seja restaurada.

    Combinadas com as duas publicações anteriores, “O Casamento Químico” tem um significado ligado ao Graal óbvio. A Igreja, por isso mesmo, não perdeu tempo em lançar todo o peso de sua condenação contra os Manifestos. O ambiente era mítico, mas, para ilustrar a cena, os rosa-cruzes só usavam um único castelo em suas representações: o castelo de Heidelberg, a abadia do Leão Palatino – o lar do príncipe Federico do Reno e sua esposa, princesa Elizabeth Stuart, filha do rei James VI dos escoceses (James I da Inglaterra).

    Apesar do despertar rosa-cruz da Reforma, a Irmandade da Ordem da Rosa-Cruz tinha uma história muito antiga, remontando à Escola Egípcia de Mistério do Faraó Tutmósis III (c. 1468-1436 a.C.). Os velhos ensinamentos foram disseminados por Pitágoras e Platão, chegando mais tarde à Judéia por meio do Terapeutato egípcio ascético, que presidia em Qumrã, na época anterior a Jesus. Aliados ao Terapeutato estavam os magos samaritanos de Manassés do Oeste, cujo chefe era o líder gnóstico Simão (o Mago) Zelote, um confederado convicto de Maria Madalena, um essênio da diáspora e o avô de Maria Madalena. A desobediência de Menahem era dos sacerdotes da família de Judas Macabeu, tão reverenciado na história do Graal arturiana de Gawain.

    O “discípulo amado”, João Marcos (promulgador do Evangelho de João e também conhecido como Bartolomeu), era um especialista em medicina preventiva e curativa e ligado ao Terapeutato egípcio (gerando o cognato “terapêutico”). Foi por causa disso que João se tornou o santo reverenciado dos cavalheiros hospitalários de Jerusalém. João Marcos era o discípulo que Jesus encarregou de cuidar de sua mãe na crucificação: “Dessa hora em diante, o discípulo a tomou” (João 19:27). Algumas Bíblias – incluindo a versão autorizada do rei James – erroneamente acrescentam uma ou mais palavras (geralmente em itálico): “... a tomou para casa”. Mas a palavra “casa” não era aplicável ao texto original do Evangelho. Na verdade, João foi encarregado de ser paraninfo (assistente pessoal) de Maria, e em vez de leva-la “para casa”, ele teria levado Maria para as armas do Terapeutato (um paranymphs era, em termos exatos, aquele que na cerimônia conduzia a noiva até o noivo).

    O símbolo dos curandeiros do Terapeutato era uma serpente – a mesma que é mostrada (junto ao emblema do Graal da Cruz Rósea) para indicar São João no manuscrito Rosslyn-Hay do rei René d’Anjou. A serpente gnóstica da sabedoria é usada como parte da insígnia do caduceu (que corresponde ao cajado alado de Mercúrio, trazido até ele por um mensageiro dos deuses) de muitas associações médicas internacionais da atualidade. Foi por causa particular proximidade de João com a família de Jesus que ele reconheceu o verdadeiro significado das bodas sagradas em Caná. A dinastia real de Jesus tinha grande mérito, mas a de Maria Madalena também. Ela era a original  Notre Dame des Croix, a portadora do vaso messiânico, a Senhora da Luz – e é no cálice dela que a Cruz Rósea do Sangreál é sempre encontrada.

    Entre os notáveis Grão-Mestres rosa-cruzes havia o poeta e filósofo italiano Dante Alighieri, autor de “A Divina Comédia”, por volta de 1307 (Howard, Michael; The Occult Conspiracy. Yates, Frances A.; The Rosacrucius Enlightenment. Waite, Arthur; The Real History of the Rosacrucians.). Um dos mais ávidos estudantes de Dante foi Cristóvão Colombo, que, além de seu patrocínio pela corte espanhola, era bancado também por Leonardo da Vinci, membro da Ordem dos Crescentes de René d’Anjou (uma retomada de uma antiga Ordem das Cruzadas, estabelecida por Luis IX). Outro proeminente Grão-Mestre era o Dr. John Dee, astrólogo, matemático, agente do serviço secreto e conselheiro pessoal da rainha Elizabeth I. Também o advogado e escritor de filosofia Sir Francis Bacon, Visconde St. Albans, foi Grão-Mestre no início do século XVII. Sob o rei James VI Stuart, Bacon se tornou o Procurador-Geral da Grã-Bretanha e lord Chanceler. Por causa da contínua Inquisição, ele se preocupava muito com a perspectiva do assentamento católico em grande escala na América, o que o fez se envolver de modo particular com a colonização transatlântica britânica, incluindo a famosa viagem do Mayflower em 1620. Entre os colegas rosa-cruzes de Bacon estava o notável médico e filósofo teólogo de Oxford, Robert Fludd, que auxiliou na tradução para o inglês da Versão Autorizada da Bíblia do rei James.

    Em 1307, os rosa-cruzes tinham sido formalmente inaugurados na Escócia pelo rei Robert, o Bruce, que escolheu certos templários e hospitalários para serem fundadores dos Irmãos Mais Velhos da Rosa-Cruz. A Ordem foi herdada por seus descendentes da Casa Real de Steward e, na era Stuart da Grã-Bretanha, século XVII, os rosa-cruzes eram inseparavelmente ligados à Sociedade Real científica. Essa academia incluía mestres e acadêmicos como Robert Boyle e Sir Christopher Wren, que tinha destaque na Ordem Rosa-Cruz. Os objetivos e as ambições da Ordem, com eminentes estudiosos como Sir Isaac Newton, Robert Hooke, Edmond Halley e Samuel Pepys, eram claros: avançar os estudos e a aplicação da antiga ciência, da numerologia e da lei cósmica. Os rosa-cruzes também se empenhavam em encorajar os ideais do Terapeuto egípcio, promovendo assistência médica para os pobres. Não é coincidência que a agência de maior influência no campo da emergência médica em todo o mundo (conforme estabelecido na Convenção de Genebra de 1864) seja identificada por sua familiar Cruz Vermelha.

    Na época do rei Charles I, a Ordem Rosa-Cruz estava bem estabelecida em vários países, incluindo Grã-Bretanha, França, Alemanha e Holanda. O trabalho da Ordem progrediu muito por algum tempo, independentemente da condenação papal emitida por meio de decretos do Vaticano. Contra esse progresso, porém, um novo inimigo visava à fraternidade erudita – um inimigo cujos esforços perniciosos se concentravam para atrasar o avanço espiritual e tecnológico por tempo indeterminado. Os puritanos estavam chegando.

    É um fato triste que, sempre que as ações pérfidas de um regime são suprimidas, outro regime de igual iniquidade é criado no lugar. Foi isso que aconteceu com a separação da igreja inglesa de Henry VIII de Roma. Não tardou para que Henry fechasse mosteiros e vendesse as terras deles para classes mercantes; mas não era como se os cultos monges da Inglaterra tivessem a menor afinidade com a Igreja Católica episcopal. De modo semelhante, ao estabelecer a Igreja Anglicana Protestante (a Igreja da Inglaterra), a filha de Henry, a rainha Elizabeth I, apressou-se em impor seu controle absoluto aos católicos da Irlanda. Ela vendeu Ulster para as Associações de Londres, cujos mercadores forçaram os irlandeses a se tornarem seus servos ou a abandonar sua terra natal.

    Henry VIII não se tornou protestante, como é frequentemente sugerido; na verdade, ele tinha denunciado Martinho Lutero em seus escritos. O que ele fez foi cortar a parte inglesa da Igreja do controle papal. Isso facilitou seu divórcio de Catarina de Aragão (a filha de Fernando e Isabela, da Espanha). Também permitiu que ele tivesse acesso à riqueza da Igreja e às propriedades na Inglaterra. Quando o conselho dos reformistas protestantes assumiu as rédeas depois da morte do rei, o povo não ficou feliz, mas sua felicidade diminuiu ainda mais quando Mary Tudor se casou com Filipe da Espanha e começou a queimar protestantes na Inglaterra. Bloody Mary (ou Maria, a sanguinária) morreu antes que ocorresse uma grande revolta pública, e sua meia-irmã Elizabeth acalmou o furor, criando a Igreja Anglicana Protestante. Foi o medo de que a Irlanda fosse usada para incitar uma invasão espanhola da Inglaterra que motivou suas ações, mas um fim a curto prazo raramente justifica um meio a longo prazo, e as tristes repercussões dos atos de Elizabeth ainda podem ser sentidas.

    Quaisquer que fossem os motivos de Henry e Elizabeth, seus esforços aumentaram grandemente o poder das classes mercantes, que se aliaram aos protestantes holandeses para suprimir as pretensões comerciais internacionais. A resposta de Filipe II foi a grande Armada, mas esta foi repelida com a considerável ajuda das condições climáticas. A Inglaterra emergia como uma nação religiosamente independente, com a Igreja Anglicana firmemente estabelecida, mas muita coisa havia mudado desde que Martinho Lutero se pronunciou quase um século antes.

    A Igreja Anglicana, com sua estrutura episcopal, tornou-se tão pouco tolerante com outras denominações quanto a Igreja de Roma. Na época do rei Charles I (1625-1649), ela já era decididamente antagonista em relação a qualquer um que ousasse questionar seu dogma. Como uma irônica repetição da história dos templários, cientistas, astrônomos, matemáticos, navegadores e arquitetos rosa-cruzes se tornaram as vítimas do pernicioso sistema protestante. Os clérigos anglicanos os chamavam de pagãos, ocultistas, hereges, assim como a Igreja de Roma fazia. Na verdade, a queda do rei Charles I teve muito mais a ver com sua tolerância religiosa e sua ligação com aqueles grandes homens de conhecimento e erudição avançada do que os livros ortodoxos ensinam.

    Se os cientistas ocultos da alta sociedade eram perseguidos pela sua própria Igreja nacional, havia pouca esperança para os praticantes dos velhos costumes nos estratos mais baixos da sociedade – aqueles que tinham sido tachados de bruxos pela Inquisição. Eles viviam com medo dos extremistas protestantes, assim como tinham temido os católicos, e a seita protestante que mais se assemelhava ao fanatismo da Inquisição era a própria seita que se dividiu do episcopado anglicano para se tornar mais “religiosamente” pura. Os que esses puritanos conseguiram, porém, foi se transformar em idólotras intolerantes, desprovidos de qualquer intelecto espiritual. Na verdade, eram tão antidemocráticos em suas crenças que seu chefe preliminar era um déspota brutal que fazia até Tomás de Torquemada parecer um cordeirinho. Foi durante os anos do selvagem protetorado de Oliver Cromwell, a partir de 1649, que os astrônomos e matemáticos foram forçados a se esconder debaixo do solo, como o Colégio Invisível. Foi só em 1660, após a restauração de Stuart, que os rosa-cruzes apareceram abertamente em público mais uma vez, com o rei Charles II como seu novo patrono e promulgador da Sociedade Real.

     

    (*) Trecho do capítulo “Heresia e Inquisição” (páginas 281 a 285) do livro “A Linhagem do Santo Graal – A verdadeira história do casamento de Maria Madalena e Jesus Cristo” de Laurence Gardner publicado em 2004 pela Editora Madras com tradução de Marcos Malvezzi Leal.