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  • Contato Brasil, 19 de agosto de 2018 18:11:31
Misto Brasília - Por Gilmar Correa
  • 23/01/2018 15h09

    Conveniências na cegueira

    A realidade parece semear a doença relatada no livro de Saramago e no filme de Meirelles

    As mentiras que alimentam a cegueira, como na política brasileira/Arquivo/Reprodução/DanielNonohay

    Quem não assistiu “Ensaio sobre a cegueira” deveria procurar um tempo e ver este filme dirigido por Fernando Meirelles em 2008. A produção que contou com o apoio de três países – Brasil, Canadá e Japão – é baseado no livro de José Saramago, outra leitura que não pode deixar de ser feita.

    Os personagens ficam cegos diante de uma misteriosa doença que desaparece sem deixar rastros. O contágio revela o pior do ser humano e seus comportamentos chegam à insanidade. A exploração humana e a submissão decorrente criam uma atmosfera insalubre.

    A realidade parece semear a cegueira relatada no livro de Saramago. Nosso tempo é de escuridão, talvez uma passagem necessária para que ao cabo dessa tragédia possamos colher algum ensinamento.

    Ao exemplificar a política, encontramos sinais desta escuridão onde a luz se fez breu. O resultado disso é a grande crise de valores morais que a cada dia desmotiva ao povo brasileiro. Como amar a pátria enquanto somos obrigados a aplaudir um circo decadente, como escreveu, em 2015, o advogado e suplente de senador gaúcho Christofer Goulart.

    A silhueta engana a mente, mas é obra perfeita para àqueles que já tem opinião formada.

    É o caso da senadora Gleisi Hoffmann, presidente nacional do PT. Na esperteza de criar imagens em defesa do chefe, caiu na esparrela de creditar a faixa “Fuerza Luca” a um suposto apoio a Lula da Silva entre a torcida do Bayern de Munique, que expressou solidariedade ao jogador que foi vítima de briga de torcidas.

    O ato falho demonstra que o fim justifica os meios, aliás uma frase creditada falsamente a Nicolau Maquiavel em seu livro “O Príncipe”. As situações e oportunidades seriam criadas segundo a conveniência e nem sempre a verdade é extraída do contexto.

    A senadora desliza novamente quando é flagrada na campanha midiática mentirosa e, ao invés de admitir o lapso a partir da faixa, enxerga a oportunidade de atacar. Bem típico dos personagens políticos brasileiros, mas não certamente os únicos mundo afora.

    Comportamentos bizarros como este transformaram a política como o eleitor vê hoje, num antro onde tudo é possível, tudo é válido e as desculpas são descartáveis assim com as verdades. As mentiras, essas sim, se proliferam como ervas daninhas.

    A cegueira política é um fenômeno que conduz manadas cada vez mais intolerantes e violentas. Os fatos deixam de ser verdades e a versão constitui a base de discursos, ou como disse Joseph Goebbels, “uma mentira dita mil vezes torna-se verdade”.

    Aliás o próprio Goebbels foi vítima da mentira. Geralmente atribuída a Winston Churchil, a frase “cortina de ferro” é do alemão nazista, que a usou para exemplificar a guerra entre a União Soviética e a Alemanha, na Segunda Guerra Mundial.